segunda-feira, 5 de abril de 2010

Lisboa e os Poetas (17)


"Despedida"

"sentei-me ao sol
no alto das escadas de Alcântara
a ver os barcos
o rio
os carros que faziam barulho
lá em baixo
fiquei assim muito tempo
sentada ao sol
deixei o sol aquecer
um corpo que já tremia
por ter ficado sozinho
perplexo
sem resistência
por ter ficado sozinho
o corpo já se morria
todas as árvores são
aquelas mesmas árvores que eu vi?
e o céu
é sempre o mesmo céu?
e a terra em que me deito
é sempre a mesma terra
quer eu diga que vivo
ou que morri?"


Yvette Centeno

2 comentários:

divagarde disse...

Sentei-me ao sol no alto das escadas de Alcântara, a ver os barcos, o rio, as árvores.
As árvores serão as mesmas. Mais frondosas as copas, mais viris os troncos, mais profundas as raízes. E a estas outras se acrescentarão.
O sol há-de nascer e pôr-se de igual jeito, dando lugar a que a Lua se erga e repouse, num ciclo reiterado. Assim alagando o céu de luz ou agasalhando-o em véu de nuvens ou estrelas.
O rio terá mais vasto caudal. Pujante, escalará a cidade baixa.
Serão, porém, também estes - céu e rio -, ainda os mesmos. Esteja eu, ou não. Porque assim foi antes, agora é, e depois de mim será.
Eu, andarei por aí, algures.

Ana Cristina Casqueiro Haderer disse...

Sempre muito a propósito...