sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Lisboa e os Poetas (1)



“Nas nossas ruas, ao anoitecer
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, O Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no mar, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me, e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terras num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas do carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas!
E apinham-se num bairro aonde miam gatas
E o peixe podre gera os focos de infecção!”

Cesário Verde



(Foto do "Arquivo Fotográfico de Lisboa")

1 comentário:

Rui Luis Lima disse...

Caro José Quintela Soares!
Este poema de Cesário Verde recorda-nos bem uma outra Lisboa, que já não existe, um retrato poético de uma beleza absoluta.
PS- Continuamos a aguardar o regresso tão prometido do famoso "Cais das Colunas", que um dia o Carlos Boelho pintou de forma maravilhosa.
Abraço cinéfilo
Paula e Rui Lima