domingo, 22 de julho de 2007

Poetas

Descia o Chiado em passo lento, como sempre faço aos sábados de manhã.
Ao passar pela Igreja dos Mártires, sou abordado por uma rapariga nova, de bom aspecto, toda vestida de branco.
- “Desculpe, gosta de poesia?”
-“Gosto.”
-“Quer ler um poema meu?”, tirando de uma capa de plástico um A4 impresso em computador.

Peguei na folha.

- “Quer que lho leia?”, perguntou em voz amena.
- “ Não, se não se importa lerei mais tarde”.
- “São 2 euros, menos não”.

Dei-lhe 2 euros.

- “Deixe-me assiná-lo”
Assinou.
-“Obrigado e felicidades.”
-“Felicidades também para si”.

E segui.

O poema é este:

“Descreve-me o silêncio…
Não questiones o mar
Despe-o ao invés…
Deixa tudo, mas mesmo tudo.
Mergulha de vez na eloquência
Da mudez, rasga a palavra, recorta-a
Até que dela só reste picadinho…
E só aí talvez de ti digam que
Finalmente és uma pessoa banal…
Ou então nem assim porque todos
De ti já sabem que dormes e
Acordas cada dia com a tua loucura
E tens por amante a poesia…”

Com amizade
Maria do Carmo Correia
21/07/07

Uma rapariga que escreve.
Que vende poema a poema na rua.
Que não aceita menos de 2 euros por cada um.
Que nenhum editor certamente aceitou.
Que acredita em si.

Lisboa. Dos poetas.

5 comentários:

teresamaremar disse...

:)

Este episódio, conforme o lia fez-me, logo depois das primeiras linhas ,lembrar um outro...

Agosto de 1985, o meu primeiro Verão em Paris. Place du Tertre.

Enquanto circulava entre os diferentes quadros expostos, um dos pintores, que exibia vários trabalhos cubistas, olhou-me e disse: deixe-me pintar o seu rosto.
Eu sorri, recusei e continuei a circular.
Detinha-me noutros trabalhos vizinhos e ele aproximou-se insistindo. Perguntei o preço, não lembro já quanto, mas era demais para mim, então com 25 anos e no primeiro emprego. E recusei sorrindo de novo.
Ele insistiu, foi baixando o preço, até eu dizer que não devia baixá-lo, que ele tinha valor e não devia menosprezá-lo baixando preços.
A quantia que ele pedia era já humilhante para os tão bons trabalhos que exibia, mas, ainda assim, elevada para mim.
E, quando eu já estava uns quantos colegas mais à frente, veio de novo, dizendo que me deixasse apenas pintar-me, sem preço, pelo simples prazer que lhe daria fazê-lo. Disse que não o queria guardar, que mo oferecia, apenas queria poder pintá-lo. Não deixei, a sorrir.

Lembrei este episódio todas as outras vezes que fui a Paris, e lamentei sempre não ter acedido. Não sei se, entretanto, alguma galeria o aceitou, não lhe memorizei o nome, mas, curiosamente, lembro os trabalhos. Eram fantásticos.
Ele também acreditava em si.

jose quintela soares disse...

Olá teresamaremar.

Achei curioso o seu comentário.
Eu estive em paris, pela primeira vez, em 1976, e na obrigatória subida a Montmartre, fui abordado por um jovem que em poucos minutos me fez o "retrato". Era polaco, estudava arquitectura, e pagava os estudos com o que ganhava com os seus "bonecos". Antes de ele começar, disse-lhe que também eu era estudante, e que portanto não lhe poderia pagar muito.
"Não importa, qualquer coisa é melhor que nada!"
Ainda tenho a cartolina.
E não está nada mal.

teresamaremar disse...

:)

é interessante ver como nos "vêem", não é? descobrir o que os outros em nós descobriram.
Já olhou o retrato que ele fez sob esta perspectiva, procurando ver os detalhes que ele em si descobriu? ... agora, depois desse tempo?

Curiosamente, há uns 4 anos, quando fazia umas aulas de pintura, e apareceram uns artistas para uns eventos na galeria, uma delas disse-me que também gostaria de me pintar, e a técnica tinha uns laivos cubistas. Aí concordei, mas nunca cheguei a ver o trabalho final porque se meteram férias e eu estava ausente quando ela o concluiu. Levou-o consigo.
Ainda hoje fico curiosa em como seria o meu rosto visto por um cubista :)

geocrusoe disse...

Ruas de poetas, pintores, músicos, palhaços não são retratos de carência social, mas dádivas urbanas de que frequentemente fugimos de pagar o prazer e as memórias que nos propõem, mas disfarçadamente lá tentamos roubar um pouco da beleza que deixam estampada à sua volta. Ainda bem que pagou os 2 euros, já me arrempendi de outros que recusei e me ficaram na memória de Quebec City.

Blog do Jan disse...

Caro amigo,
Se acreditas que minha mae passou pela mesma situaçao...E comprou o poema..Esse mesmo para mim.Um jovem poeta aspirante que tento.

Imortal.

Abracos